Notícia Publicado em 29 de maio de 2018
Como as redes sociais têm incentivado a adoção de jovens esquecidos nos abrigos
Você quer ser minha família? "Eu olhei aquela foto, depois cliquei no vídeo e senti que ela já era a minha filha, que eu sempre fui a mãe dela e que a gente só estava separada." A operadora de telemarketing Eliene…

Você quer ser minha família?
“Eu olhei aquela foto, depois cliquei no vídeo e senti que ela já era a minha filha, que eu sempre fui a mãe dela e que a gente só estava separada.” A operadora de telemarketing Eliene Cristina Magalhães, de 28 anos, e o marido, o jornalista e servidor público Carlos Pierre, de 31, viam a menina se movimentar em frente à câmera, sorrir, abraçar e “trocar a fralda de uma bonequinha”.
“Apesar das limitações que ela tem, é uma criança muito doce e pode completar sua família”, sugeriam a voz e as legendas em um vídeo de 1 minuto e 28 segundos que assistiam em casa, em Uberlândia, Minas Gerais - e que aproximariam, surpreendentemente, as vidas dos três. Eliene não esquece: seus olhos estavam fixados em Camili.
Espera por uma chance
Diagnosticada com retardo mental moderado, a menina morava a mais de 1 mil quilômetros de distância, em Viana, no Espírito Santo. Estava em meio a milhares de crianças e adolescentes brasileiros na fila de adoção, à espera de uma chance que parecia não chegar nunca. Camili tinha 12 anos. Viu os irmãos mais novos serem adotados enquanto ela continuava esperando.
ARQUIVO PESSOAL /* Eliene e Camili: “Empatia foi imediata”*
“Quando eu encontrei a imagem dela, a empatia foi imediata. A reação do meu marido foi a mesma”, conta Eliene. [Imagem mostra Eliene e Camili com tranças nos cabelos]
A foto e o vídeo da menina, postados cerca de quatro meses antes, apareciam em uma página de internet do Tribunal de Justiça do Espírito Santo e no canal do Tribunal no YouTube. “Eu vi e comecei a sonhar. Só queria saber o mais rápido possível onde ela estava”, recorda Eliene.
Menos de dois meses depois, ela e o marido foram buscá-la. A adoção de Camili foi possível graças à aposta das Varas da Infância e Adolescência no Brasil em usar redes sociais e outras plataformas online para dar cara e “voz” a crianças e adolescentes que estavam fora do radar da maioria dos possíveis pais e mães no país.
Aproximadamente 90% dos que estão no Cadastro Nacional de Adoção (CNA) em busca de um filho se mostram abertos, apenas, a crianças com menos de oito anos. Cerca de 64% não querem adotar irmãos e um percentual parecido só está interessado em levar a criança para casa se ela for saudável. Esse não era o perfil de Camili e não é o de mais da metade das crianças que estão hoje no Cadastro - as que estão juntas com irmãos, têm idades entre 8 e 17 anos e vivem, normalmente, durante anos em abrigos.
Muitos acabam não sendo adotados. Alguns se beneficiam de programas de apadrinhamento - o “padrinho” pode ser apenas alguém para conversar e passear ou que dá apoio financeiro, para custear cursos e tratamentos.
“O programa que estamos desenvolvendo é voltado para as crianças e adolescentes que estão no cadastro, todavia, sem pretendentes. Elas são de difícil colocação em uma família adotiva e suas informações não eram sequer acessadas (por homens e mulheres que estão inseridos como potenciais adotantes no cadastro)”, diz a juíza Helia Viegas, secretária executiva da Comissão Estadual Judiciária de Adoção de Pernambuco (Ceja-PE), pioneira em usar ferramentas online para unir pais e filhos nesses casos. “Se eu não colocá-los nessa busca ativa, eles vão mofar nos abrigos, vão ficar esperando. Essa é a realidade.”
Por meio do Projeto Família, de autoria da psicóloga Maria Tereza Vieira de Figueiredo, que fazia parte da equipe técnica da Ceja-PE e é mãe de cinco filhos, três deles adotivos, a Comissão estadual compartilha fotos e os anseios dos que aceitam participar da campanha, com autorização judicial para isso.
O conteúdo produzido fica, por enquanto, em sua página no Facebook (https://www.facebook.com/cejapernambuco/).
Helia Viegas, juíza: “Objetivo é aumentar consideravelmente as chances de terem uma família”. Se conseguir aparato técnico, o que tenta viabilizar por meio de parcerias, por falta de recursos, o plano é produzir vídeos e usar o Instagram para reforçar a divulgação. “Não estamos, com isso, colocando essas crianças e adolescentes na prateleira, como se fossem mercadorias, nem dando visibilidade a eles de forma constrangedora. O que estamos fazendo é tentando ampliar consideravelmente as chances de eles terem uma família”, diz a juíza. “Porque uma coisa é ter os dados frios. Outra é conhecer mais sobre eles. E aí, um mundo se transforma”.
Na prática, a ideia é tirar as crianças e jovens nos abrigos do anonimato e permitir que seus nomes, depoimentos, além de pequenos trechos de suas histórias de vida possam ser acessados, visualizados e curtidos por milhares de pessoas, aumentando suas chances de conseguir um lar.
Publicação original em BBC Brasil.